Esta obra resultou de um momento de concentração do Flávio, perante um suporte em papel, utilizando pincel e tintas acrílicas de várias cores. Se falo de "concentração" é para salientar a importância da mesma em todas as experiências com crianças no domínio da elaboração plástica, como uma das conquistas fundamentais de todo o processo. Ela fará parte da aquisição de um auto-domínio com características especiais, de um “desejo de fazer” que obriga à chamada de várias capacidades da atenção, do gesto e, principalmente, da serenidade observativa.
Para aqueles que estão habituados a olhar peças de arte com sentido analítico, as manchas aqui configuradas quanto ao seu perfil, às suas modulações cromáticas e às intersecções ou sobreposições que evidenciam, demonstram uma autenticidade expressiva autêntica.
Tão autêntica, na sua verdade e na tensão interior que as anima, que poderiam figurar em qualquer exposição de artes plásticas ou galeria de pintura de vanguarda!

A água, mãe de todas as brincadeiras
Usando tintas de água na minha labuta de pintor, tenho já ao meu alcance o primeiro elemento vivo que se presta a incontáveis manipulações divertidas:
– encher o balde onde se vão depois lançando os pincéis já sujos;
– trazer o balde para junto da mesa e encher depois dois ou três frascos de vidro com água do balde, etc.
(esta última operação ganha imenso em ser levada a cabo através de uma borracha daquelas de lavar ouvidos que também uso muito, dado que especializa e amplifica o prazer de mexer na água!).
– as tintas das diversas cores que usamos não são apenas aquelas que estão em tubos, ou latas, ou frascos. Às vezes também é preciso produzir um determinado tom, a partir de um pigmento em pó, o que fornece uma variedade de manipulações arriscadas, mas deleitosas.
– no caso das cores que repousam há semanas ou meses em certos frascos parados, o ritual de cheirar a cor provoca sempre uma percepção específica da natureza do material, e um arrepio de prazer ou de repulsa (a que uma careta expressiva vem conferir o toque teatral a que se segue a gargalhada espontânea!...)
Rituais do género são sempre seguidos duma cuidadosa acção de remeximento, para que a emulsão ganhe qualidades úteis e expressivas.
No caso de artistas como eu e o Flávio tais delongas não são tempo perdido, muita atenção!...
É necessário, de acordo com o que é dito antes e com o espírito geral da nossa tarefa, deixar aqui uma ideia muito importante: o que nos anima e entusiasma em todo este trabalho não são os produtos finais, mas sim o longo itinerário percorrido e todos os seus acidentes.
Tanto valor tem entornar cuidadosa ou precipitadamente um frasco dentro dum balde, acrescentar duas ou três gotas de água dentro dum godé para aligeirar uma mistura, esvaziar uma lata de tinta dentro duns frascos ou remexer com gosto um pincel dentro dum frasco bem cheio de amarelo!...
Todas estas coisas cheiram, todas convidam à manipulação saborosa, todas envolvem riscos (uma ou outra camisola manchada previne-se vestindo os dois artistas um longo bibe branco, onde as nódoas coloridas vêm habitar como testemunhas duma alegria simples, mas conseguida).
Preparar o material, escolher as cores, cortar o papel, e nos intervalos cuidar sempre da limpeza e das arrumações.
Este trabalho, como outro que se segue, resulta de um "traço espontâneo", a azul forte, de autoria do Flávio, em que a escolha do suporte e respectiva cor proporcionam uma grande intensidade expressiva. Ao camarada mais velho tocou um aspecto muito lúdico e muito produtivo que dá prazer a ambos: a junção do elemento água!... Actuando de forma inteiramente automática ou muito reduzida oferece ao "operador principal" uma grande quantidade de acidentes que ora suscitam sorrisos e aplausos, ou as mais iradas reclamações!...
Uma das regras fundamentais dentro do tal espaço “adulto” do atelier recheado de materiais secretos e “proibidos”, é pôr de lado todos os preconceitos e evitar a todo o custo as regras excessivas.– Brincar com uma criança não é um exercício precipitado, episódico, casual. Brincar é estar atento, é acompanhar com amor cuidadoso e inteligência produtiva!...
...

O comentário deste trabalho está incluído no anterior, com uma pequena nota que não deixo de mencionar para os interessados mais activos, e que tem a ver com o utensílio utilizado: em vez de um pincel redondo, um pincel maior e espalmado. È interessante variar os meios de execução, de registo e de suporte, porque a gestos semelhantes correspondem resultados diferentes, e isso também produz efeito na ideia que o artista tem das suas capacidades de intervenção e dos resultados que pode obter. Devo neste ponto do discurso referir que não é esta a primeira experiência nesta área de interesses. Tive dois filhos de idades suficientemente diferenciadas para darem à tarefa o carácter de exercícios completamente distintos, o que foi acentuado pelas respectivas diferenças de temperamento.
Ambos passaram, contudo, pela elaboração de universos imaginários, de referências e experiências incontáveis.
Colecciono largas centenas de desenhos e pinturas, muitos anotados e datados, cuja produção revela horas sem fim de deleites vários e produtiva camaradagem.
Se li alguma coisa? Com que competência bibliográfica e apoio especializado?
Alguma coisa li, e ser casado com uma professora competente e apaixonada (a Vóvó Sãozinha) não deve ser apoio que se esqueça ou não se mencione com o mais significativo relevo.
Mas do que li (vários livros criteriosamente comprados pelas principais livrarias da cidade, era pequenito o pai do Flávio) já não me lembro praticamente nada.
Se é esse o espírito essencial da cultura (uma coisa com que ficamos depois de termos esquecido tudo aquilo que lemos) então sim, possuo certamente algum conhecimento credenciado. Mas nem nomes nem sólidas referências posso chamar agora em meu socorro.
Neste fazer, a matéria prima principal é feita de afecto, de gosto e duma imensa alegria em colocar experiências vividas noutros cenários ao serviço das magníficas causas do futuro.

Este trabalho não apresenta na realidade uma aparência tão conformada como mostra a fotografia. Não passa de um elemento pintado e recortado previamente, ao longo das diversíssimas elaborações na nossa oficina, sobreposto a um fundo também colorido a vermelho pelo Flávio (por isso vibrante e com algumas résteas de negro). A conjugação de ambos (figura e fundo) beneficia dos vestígios da sua execução, das transparências de cor, a que o relevo de sombra na parte de baixo confere um toque indispensávelmente eficaz que nós, artistas como o Flávio e eu, lançamos magnanimamente aos olhos do mundo, como se fosse nada...


O comentário a este trabalho serve perfeitamente para descrever a inter actividade possível e desejável entre os participantes. O suporte é uma das nossas cartolinas coloridas, neste caso amarela (um aproveitamento volumoso de uma oportunidade “oferecida”, há anos já, por uma dessas inúmeras grandes superfícies). O ponto inicial do exercício/brincadeira foi-me confiado a mim: fazer bolas vermelhas!... O processo, que nunca é linear nem regular como aconselha uma comparticipação sempre activa, fornece um elemento sobre o qual o Flávio, por seu turno, intervém de forma bastante mais dinâmica. A sua especialidade é a de transgredir, animar ou desconstruir um alinhamento demasiado “estático” das bolas do artista mais velho e, logo, menos vital!... O resultado parece-me excelente e demonstra que o mesmo processo de elaboração pode resultar sempre de forma exemplar… se estiver presente essa condição (vulgar e insignificante ?) do génio “natural” das mãos duma criança!...
Cortar e colar papéis ou outros objectos entre si é sempre coisa apetitosa!...
No entanto, faz todo o sentido sujeitar a sequência dos nossos “trabalhos” ao aproveitamento dos desenhos e das pinturas feitos anteriormente.
De acordo com o que se disse acima, cada “obra” é normalmente sujeita a um ritual de “encerramento” que no caso do Flávio só com uma alguma subtileza da minha parte escapa à desaparição pura e simples.
Julgo que a substituição do processo da destruição traumática do objecto alcançado pela sua “metamorfose” é um ganho apreciável, porque inscreve na nova peça a memória dos gestos anteriores e os seus respectivos valores plásticos, elaboração essa já tolerada pelo Flávio, como resultante “apresentável” do nosso trabalho.
O que inicia um processo distinto do desenho ou da pintura, e nos permite entrar numa espécie de “manufactura”, geralmente de múltiplos semelhantes entre si, que a convenção das artes pode facilmente associar ao exercício da modelagem ou da escultura!...

O trabalho aqui apresentado é um aproveitamento dos já referidos "multiplos", ou objectos da mesma natureza, reunidos sempre em quantidade significativa, passíveis dum processo de "entesouramento" ou "colecção" de afins, com uma designação oportuna, tanto podem ser diamantes, safiras ou rubis, como moedas de oiro, como planetas, eu sei lá.
Neste caso são coisas que fazemos às vezes de empreitada: bolas, por exemplo. Circulos sobrepostos, pintados, colados ou recortados, resultado da saborosa "destruição" desta ou daquela obra. Tais elementos são sempre guardados e renascem sempre através de outras brincadeiras, neste caso foram colados uns ao lado dos outros, numa cartolina de cor.
Se o observador notar uma espécie de "limpeza excessiva" no trabalho compositivo, pode ficar tranquilo: esse é um dos "processos de trabalho" mais bem tolerados pelo meu camarada mais novo: retira, por vezes, um certo gosto em remeter-se às funções de observador.
No que me diz respeito, condescendo em tornar mais operacionais as minhas funções porque vejo que elas, para além de estimularem certos desenvolvimentos da tarefa, fornecem um certo prazer contemplativo ao Flávio, elemento estimulante de algo de que já falei: o reforço da capacidade observativa e da "atenção".
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Primeiro, julgo que será dificílimo trazer uma criança a tarefas deste género se ela for inteiramente alheia às mesmas, ou não saiba retirar prazer delas.
No caso afirmativo, o trabalho feito na área da expressão criativa é sempre de aproveitar porque conduz a criança à aquisição de certas operacionalidades psico-motoras e intelectuais importantíssimas, aproveitando o prazer que tem nisso como estímulo valorizador da sua actividade.
Operacionalidades essas que, só por conjugação de circunstâncias imprevisíveis, irão acordar “a vontade da arte” mas que, num caso ou noutro, servem sempre como processo estimulante das capacidades gerais do menino e das aptidões de que necessita para aperfeiçoar e melhorar a sua adaptação às complexidades do mundo.
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As duas fotos apresentadas foram feitas por J.P.Brites e quem quiser vê-las um pouco maiores é só clicar em cima
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